A figura quase mítica do médico de antigamente, que conhecia seus pacientes pelo nome e realizava visitas domiciliares guiado pelo olhar clínico, contrasta fortemente com o cenário atual da medicina. Hoje, a prática médica é digital, acelerada e tecnológica, mas paradoxalmente, parece mais distante daqueles que mais necessitam de seus serviços.
O Brasil ultrapassou a marca de 600 mil médicos ativos, conforme dados recentes. O crescimento na formação é notável, com mais de 390 escolas médicas no país, um número superior ao de qualquer outro lugar do mundo. Anualmente, mais de 40 mil novos médicos são formados, mas as vagas de residência não acompanham esse ritmo. Isso resulta em um grande número de profissionais sem oportunidades de especialização, enquanto muitos brasileiros ainda carecem de acesso a cuidados médicos.
Mesmo em cidades como João Pessoa, onde a proporção de médicos por habitante é alta (cerca de 5 para cada mil, acima da média nacional), parte da população enfrenta dificuldades para obter atendimento regular, especialmente nas áreas periféricas e rurais. O problema não reside na falta de médicos, mas sim na má distribuição, na precarização e na desorganização do sistema de saúde.
A forma como a medicina é praticada também está mudando. Consultas migram para telas, e o toque físico é substituído por teleconsultas. A pandemia acelerou a aceitação da telemedicina, uma ferramenta útil quando utilizada de forma responsável, mas que não substitui a escuta atenta e a presença física do médico.
Nas redes sociais, muitos médicos se tornaram influenciadores, acumulando seguidores, respondendo dúvidas em tempo real e combatendo informações falsas. A comunicação se democratizou, o que é positivo, mas é fundamental que o compromisso ético não seja negligenciado em detrimento da visibilidade digital. A medicina não deve se transformar em mera performance.
Nesse contexto, o médico se encontra sobrecarregado, pressionado e constantemente conectado. A nova medicina exige novas habilidades, mas a essência do cuidado permanece a mesma: a medicina continua sendo a união entre ciência e compaixão, entre técnica e toque humano. O desafio, em meio a tantas telas e tecnologias, é não perder o contato com a humanidade inerente à profissão.
Fonte: jornaldaparaiba.com.br