PUBLICIDADE

© Wilson Dias/Agência Brasil
© Wilson Dias/Agência Brasil

Dados e Metodologia da Desigualdade

Panorama do Acesso à Creche e Pré-escola

A recente investigação sobre a equidade no acesso à educação infantil, baseada em microdados de 2023, evidencia que as disparidades socioeconômicas no Brasil se manifestam de forma contundente já nos primeiros anos de vida. Dos 10 milhões de crianças de baixa renda, que vivem a primeira infância e estão registradas no CadÚnico, apenas 30% tinham acesso à creche em dezembro do ano passado. Esse percentual está dez pontos abaixo da média nacional de 40% para o conjunto da população infantil, sublinhando a exclusão sistemática das crianças mais vulneráveis. Na pré-escola, etapa obrigatória para crianças de 4 e 5 anos, o cenário é ligeiramente melhor, mas ainda distante do ideal, com 72,5% das crianças de baixa renda matriculadas, deixando uma parcela considerável sem o direito à educação básica inicial.

O CadÚnico, um registro administrativo governamental, serve como um instrumento vital ao compilar informações socioeconômicas de famílias de baixa renda, incluindo dados sobre escolaridade, renda e moradia. Paralelamente, o Censo Escolar, levantamento oficial anual da educação básica, realizado por órgãos governamentais de pesquisa educacional, fornece dados abrangentes sobre matrículas, infraestrutura e corpo docente. A análise conjunta dessas fontes de dados oficiais permitiu mapear com precisão as lacunas de acesso e aprofundar a compreensão sobre os desafios enfrentados pelas famílias em situação de vulnerabilidade.

Impacto da Educação Infantil na Trajetória e Segurança

A importância da educação infantil, especialmente para as crianças mais novas (até 3 anos), é amplamente defendida por especialistas. Uma voz influente na área de primeira infância ressalta que a creche transcende a função pedagógica, configurando-se como um espaço de aprendizagem e desenvolvimento, mas também de segurança. Para crianças em situação de vulnerabilidade, a creche oferece um ambiente protetor, onde necessidades básicas como alimentação são frequentemente supridas; em um período integral, uma criança pode receber até cinco refeições diárias. Além disso, esses ambientes desempenham um papel crucial no combate à violência e na promoção de um desenvolvimento saudável.

As evidências demonstram que uma educação infantil de qualidade tem o poder de impactar positivamente toda a trajetória escolar subsequente da criança, potencializando seu desempenho em até três vezes. No entanto, o estudo reitera que as crianças pertencentes às famílias do CadÚnico são justamente as que têm o menor acesso a esses espaços essenciais. Embora o percentual de atendimento para esse grupo tenha evoluído de 20% para 30%, ainda significa que 70% das crianças de baixa renda estão excluídas, um dado que acende um alerta sobre a necessidade de políticas mais eficazes e direcionadas.

Fatores Agravantes e Disparidades Regionais

Disparidades Regionais e Etárias no Acesso

A desigualdade no acesso à educação infantil para famílias de baixa renda não se distribui uniformemente pelo território nacional, sendo dramaticamente acentuada em certas regiões. A Região Norte apresenta a taxa mais baixa de matrícula em creches para crianças de baixa renda, alcançando apenas 16,4% em 2023. É seguida pelas regiões Centro-Oeste (25%) e Nordeste (28,7%). Somente Sudeste (37,6%) e Sul (33,2%) superam, ainda que modestamente, a média nacional de 30% para a população do CadÚnico. Na pré-escola, as diferenças regionais também persistem, com taxas de matrícula variando entre 68% e 78% para as crianças do CadÚnico, novamente com Norte e Nordeste registrando os menores índices. Além das diferenças geográficas, a idade também é um fator determinante, com a probabilidade de matrícula na creche aumentando significativamente conforme a criança envelhece, evidenciando uma lacuna na oferta para os bebês e crianças menores de 2 anos.

Condicionantes Socioeconômicos e Informacionais

A pesquisa aponta que diversos fatores socioeconômicos e até informacionais influenciam o acesso à educação infantil. A escolaridade dos pais ou responsáveis está diretamente ligada à probabilidade de a criança frequentar a creche ou pré-escola: quanto maior a formação educacional do responsável, maior a chance de inserção. A situação empregatícia da família também desempenha um papel crucial; a probabilidade de uma criança estar na creche é 32% maior quando o responsável familiar possui emprego formal. Por outro lado, a remuneração informal reduz em 9% as chances de acesso à creche e em 6% à pré-escola. A infraestrutura do domicílio e do bairro, como calçamento e iluminação, também se mostra um fator favorável, especialmente em áreas urbanas. Ademais, a falta de informação das mães sobre a importância da creche como espaço de desenvolvimento, aliada à escassez de vagas, não apenas dificulta o acesso educacional das crianças, mas também impacta a participação feminina no mercado de trabalho.

Interseccionalidade das Desigualdades

O estudo aprofunda a compreensão das desigualdades ao revelar que raça, gênero e deficiência são fatores que se interseccionam e exacerbam a exclusão. Crianças não brancas têm menores chances de estarem na escola. Entre as famílias de baixa renda do CadÚnico, crianças brancas apresentam 4% mais probabilidade de frequentar a creche e quase 7% mais chances de estar na pré-escola, em comparação com crianças pretas, pardas e indígenas. A desigualdade de gênero também se manifesta precocemente, com meninas tendo 4,05% menos probabilidade de frequentar a creche. Crianças com deficiência enfrentam uma barreira ainda maior, com 13,44% menos chances de estarem matriculadas na pré-escola.

Esses dados evidenciam um problema de desigualdade e racismo estrutural, indicando que a exclusão é multifacetada e profunda. Uma especialista na área de primeira infância enfatiza que, em um país com essas camadas de desigualdade, crianças pretas, pardas, indígenas, meninas e aquelas com deficiência deveriam ser a prioridade máxima na educação infantil, precisamente por estarem mais expostas à exclusão e por essa ser a fase de maior desenvolvimento. Ela argumenta que a educação infantil é um instrumento potente para combater essas desigualdades, sendo fundamental inseri-los na escola desde cedo para mitigar vulnerabilidades.

Programas de Transferência de Renda

Em contraponto aos fatores que dificultam o acesso, os programas de transferência de renda emergem como importantes facilitadores. A pesquisa demonstra que o recebimento do Benefício de Prestação Continuada (BPC) aumenta em 12% a probabilidade de a criança estar na creche e em aproximadamente 8% na pré-escola. O Programa Bolsa Família (PBF), por sua vez, que estabelece a matrícula a partir dos 4 anos como condicionalidade, eleva em 9% a chance de ingresso na pré-escola e em cerca de 2% a entrada na creche. Esses dados sublinham a importância dessas políticas sociais não apenas para a subsistência familiar, mas também como promotoras indiretas do acesso educacional, mitigando parte das barreiras socioeconômicas.

Desafios e Caminhos para a Equidade na Educação Infantil

A divulgação dos achados da pesquisa ocorre em um momento crucial para o debate sobre o futuro da educação no Brasil, em meio às discussões do novo Plano Nacional de Educação (PNE), da Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNIPI) e do Compromisso Nacional pela Qualidade e Equidade da Educação Infantil (Conaquei). Compreender a profundidade da desigualdade no acesso à educação infantil é vital, pois esta etapa é considerada a mais estruturante para o desenvolvimento da criança. A garantia de uma base sólida na educação infantil é um investimento com retorno comprovado, melhorando a trajetória escolar e as oportunidades futuras.

Contudo, a realidade brasileira reflete que o acesso a essa fase crucial da educação é tão desigual quanto o próprio país, privilegiando os segmentos mais abastados da população em detrimento dos mais pobres. Mesmo dentro da rede pública de ensino, a pesquisa revela um reflexo dessa disparidade. É imperativo que as futuras políticas educacionais priorizem “oferecer mais para quem tem menos”, garantindo que as crianças que mais necessitam, especialmente aquelas cadastradas no CadÚnico, sejam incluídas na sala de aula. Uma especialista no tema salienta que é inadmissível que as crianças do CadÚnico, que se beneficiariam imensamente da educação infantil como ferramenta de combate à desigualdade, estejam desproporcionalmente fora do sistema de ensino.

A pesquisa reforça a necessidade de um acesso que não apenas atenda a um direito, mas que seja pautado pela equidade, considerando as realidades de cada grupo – sejam crianças indígenas, quilombolas, brancas, negras ou com deficiência. A implementação de políticas eficazes e um esforço conjunto entre União, estados e municípios são essenciais para transformar o cenário atual. Garantir que todas as crianças brasileiras tenham acesso a uma educação infantil de qualidade e inclusiva não é apenas uma questão de direito, mas um investimento estratégico no capital humano e na construção de uma sociedade mais justa e com menores desigualdades.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

Destaques Alagoas em Dia

Relacionadas

Menu