A superação das disparidades na aprendizagem de crianças e jovens nas escolas brasileiras esbarra na “naturalização das desigualdades”, um problema estrutural enraizado no país. Segundo um especialista, é crucial entender os processos que levam a resultados insatisfatórios na educação.
“Lamentavelmente, a educação é ainda hoje uma herança de classe, mas ela tem que ser um direito de todos”, defende o diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana, André Lázaro.
Dados recentes revelam a disparidade: apenas 2,4% dos jovens dos 20% mais pobres do 3º ano do ensino médio alcançaram aprendizado adequado em matemática e português em 2023, enquanto entre os 20% mais ricos, o índice foi de 16,3%. As diferenças se acentuam ao se considerar o recorte entre áreas urbanas e rurais, com disparidades chegando a 20 pontos percentuais.
A questão racial e a situação nas áreas rurais merecem atenção especial para promover a equidade. A população negra enfrenta desvantagens inaceitáveis, e as matrículas no campo, que representam 12% do total nacional, têm sido negligenciadas. Entre 2014 e 2024, 16 mil escolas municipais dos anos iniciais foram fechadas no campo, o que, segundo o especialista, indica uma pressão para a expulsão de famílias rurais.
O país precisa valorizar as matrículas no campo como um direito da população rural, evitando que a falta de escolas na juventude force famílias a venderem suas terras, aumentando a concentração fundiária e prejudicando a agricultura familiar.
Como exemplo de medida para combater a educação como herança de classe, são citadas as políticas afirmativas no ensino superior, que ampliaram o acesso de jovens negros, estudantes de escolas públicas e pobres às universidades, enriquecendo o debate público com novas vozes intelectuais.
O especialista alerta que o problema de aprendizagem não se restringe à rede pública, afetando também as escolas privadas. Mesmo estas apresentam resultados escolares ruins, indicando que há um problema nacional a ser enfrentado.
Apesar dos desafios, o Brasil possui conquistas significativas, como altas taxas de inclusão na educação básica. Quase todas as crianças ingressam na pré-escola, e o país possui uma população escolar maior que a da Espanha, recebendo livros didáticos, transporte e merenda escolar. Em 2024, quase a totalidade dos jovens entre 11 e 14 anos estavam matriculados nos anos finais do ensino fundamental.
Entretanto, persistem carências como financiamento adequado, reconhecimento da diversidade e valorização da carreira docente, que geram resultados precários e frustram os jovens. A desprofissionalização da carreira docente, com quase metade dos professores das redes estaduais tendo contratos temporários, também impacta negativamente o sistema. É fundamental reconhecer o valor da diversidade entre as regiões e torná-la um ativo para a vida escolar.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br